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As
origens de Collippo

Collippo
A cidade romana de Collippo é referida desde o século 1 pelos
autores latinos como sendo um povoado túrdulo situado na faixa
atlântica entre Conimbriga e Eburobrittium.. Os
Túrdulos eram um povo ibérico que viviam na região de Cádiz e que, a
certa altura, emigraram para o actual território português, tendo-se
fixado na região de Leiria uns 300 ou 400 anos antes de Cristo.
Teriam escolhido o Outeiro de S. Sebastião para fixar um grande
povoado, com certeza devido às suas excelentes condições
geo-estratégicas. Este Outeiro, todavia, deveria ser já habitado,
pois nas escavações efectuadas ali no Verão passado encontraram-se
alguns fragmentos de cerâmica pré-histórica. Aquelas mesmas
escavações permitiram recolher algumas cerâmicas pré-romanas,
provavelmente dos túrdulos, que parece terem escolhido o ponto mais
alto do morro de S. Sebastião, onde está hoje o depósito de água,
para edificarem o seu povoado. Infelizmente, hoje em dia poucas são
as provas da presença destes povos pré-romanos no local, já que o
cabeço de S. Sebastião foi totalmente destruído ao longo deste
século pelos trabalhos de remoção de terras e extracção de areias
que ali teve lugar. O monte onde está hoje o depósito de água, que
há umas décadas atrás era bem mais alto, teria sido o local onde se
iniciou a história de Collippo, que, começando por ser um povoado
pré-romano, rapidamente se transformará ao longo dos primeiros
séculos da nossa Era na cidade mais importante da região leiriense.
O próprio termo “Collippo” resulta da junção da palavra latina “Coilis”,
que significa colina, outeiro, com o radical túrdulo “-ippo” que
significará povoado ou povoado fortificado. O termo Collippo, ele
mesmo testemunha então a união entre os túrdulos e romanos
significando povoado ou cidade da colina. No lugar onde se elevou a
cidade de Collippo
subsistia, nos primeiros tempos do povoamento
leiriense, na Idade Média, o paço de um rico homem chamado Randufo
ou Randulfo, como uma das testemunhas que subscreve o foral de
Leiria de
1142
Randulfus Zoleimaiz.
Este foral refere o local como um núcleo de
povoamento merecedor de expressa protecção jurídica, já que, para
além de Leiria, aparece ali demarcado para efeitos de justiça
Leirenam et Heirenam riuulos et usque ad Palatium
Randulfi. Passado alguns anos, em
1152,
já este Palácio de Randiilfo será freguesia,
devendo então, com certeza, existir uma igreja matriz. Esta será
pois uma das mais antigas igrejas da área de Leiria e, nos inícios
do século XIII, num documento de 1211,
Sancti Sebastiani de palacio de
randulfo é citado como uma das poucas
ermidas que então se espalhavam pelo extenso termo leiriense. As
ruínas da antiga cidade que então deveriam marcar aquela paisagem,
justificariam, certamente, o destaque que se atribuía ao local.
Aliás, a reutilização de sítios antigos pelas igrejas e primeiros
núcleos de povoamento cristão nada tem de extraordinário, sendo isso
mesmo preconizado por vários bispos desejosos de cristianizar sítios
herdeiros de um longo passado cultural. A importância do local nesta
altura, e eventual riqueza da sua ermida, é testemunhado
arqueologicamente por uma chapa de cobre adornada de esmaltes com
policromia brilhante, fazendo parte de um relicário saído das
oficinas de Limoges, e datável da primeira metade do século XIII. A
peça achada em S. Sebastião, em 1912, a grande profundidade, foi
adquirida pelo então Museu Etnológico de Lisboa
(O
de mv. 4625). Os frades de Santa Cruz, que
por esta altura possuiriam uma herdade próxima do local acabariam
por estender o seu domínio às propriedades onde teve assento a
cidade romana. Assim, num documento de 3 de Abril de 1544, os frades
crúzios emprazavam de novo aquelas terras a
domjnguos Carreyra morador em ha quintã de som
sabastiam que d amtyguamente se chamaua ho paço de Rendulfo
mas com a condiçam que
nam deixem nem comsytam leuar nhuua pedra grande nem pequena dos
Edefiçios antiguos da dita qujnta pera outras hobras de fora deila.
Estes Edefiçios
antiguos só poderiam ser as ruínas da
antiga Cllippo. A
proibição de se retirarem pedras da quinta para
hobras de fora deila, visa,
certamente, acabar com uma prática até aí muito frequente e de tal
forma significativa que merece uma atenção particular no documento.
Tal prática de delapidação das estruturas romanas já seria corrente,
pelo menos, desde meados do século XII, altura em que o local serviu
de fonte de abastecimento de matéria-prima nas obras de construção
do castelo de Leiria. O desmantelamento das ruínas do antigo burgo
romano continuaria até ao nosso século. Em 1909, Tavares Proença
Júnior teria comprado uma inscrição funerária que, segundo diz nos
seus manuscritos guardados no museu de Castelo Branco, teria
aparecido ao retirarem pedra das ruínas das edificações do
oppidum.
Estas sucessivas delapidações ao longo dos séculos servem para
nos ajudar a entender a actual ausência de estruturas bem visíveis e
claramente esclarecedoras de ali ter existido uma cidade antiga.
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